Da ureia inteligente à agricultura de precisão: como a tecnologia está mudando os fertilizantes
No Dia Mundial do Fertilizante, pesquisa, indústria e campo mostram que existe muito trabalho e tecnologia aportados dentro de cada grânulo de nutriente
Na terça-feira, 13 de outubro, o mundo celebra o Dia Mundial do Fertilizante, data que marca a descoberta da síntese da amônia pelo químico alemão Fritz Haber, em 1908. A invenção permitiu transformar o nitrogênio do ar, que as plantas não conseguem absorver diretamente, em fertilizantes nitrogenados produzidos em larga escala, revolucionando a agricultura, aumentando a produção e a segurança alimentar. Segundo a Our World in Data, projeto ligado à Universidade de Oxford (Inglaterra), cerca da metade da população mundial é alimentada com culturas produzidas com o auxílio de fertilizantes nitrogenados.

Mais de um século depois, o principal desafio do setor não é mais produzir nutrientes em quantidade suficiente, e sim fazer com que uma parcela maior chegue à planta.
No Brasil, essa pergunta pesa no bolso. Em 2025, o país recebeu 49,11 milhões de toneladas de fertilizantes, recorde da série, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). Desse total, 43,32 milhões de toneladas foram importadas, outro recorde – equivalente a 88,2% do volume. A dependência varia conforme o nutriente: 97% no potássio, 95% no nitrogênio e 75% no fósforo.
“Nitrogênio perdido é dinheiro que não chegou à planta. Quando o insumo atravessa fronteiras antes de chegar ao campo, cada perda é também dinheiro gasto na compra, no transporte e na logística de um produto que não cumpriu sua função”, afirma Valter Casarin, Coordenador Geral da Nutrientes Para a Vida, iniciativa que busca ampliar a discussão sobre a substância no país.
O nitrogênio é essencial para a formação de proteínas e da clorofila e, por isso, para a produtividade das lavouras. No Brasil, o fertilizante nitrogenado mais utilizado é a ureia, mas parte do nitrogênio aplicado pode escapar para a atmosfera na forma de amônia, a chamada volatilização, ou ser levada pela água para camadas mais profundas do solo, a lixiviação.
Esse é um dos pontos nos quais a tecnologia vem avançando. O especialista destaca um trabalho acadêmico realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul que registrou redução de 50% a 85% na volatilização com o uso do NBPT – sigla para N-(n-butil) tiofosfórico triamida, um inibidor de urease -, dependendo das características do solo e das condições do ambiente. “Portanto, não existe tecnologia que funcione igual em qualquer situação”, reforça.
Tecnologia dentro do próprio fertilizante
Uma das fronteiras da pesquisa acadêmica voltada ao setor é incorporar a tecnologia dentro do fertilizante, em vez de depender exclusivamente de uma aplicação adicional sobre a superfície.
No trabalho da Embrapa Solos e da Esalq/USP, com apoio da Fapesp e do Cena/USP, pesquisadores incorporaram o inibidor ao grânulo e desenvolveram um fertilizante nitrogenado multinutriente de eficiência aumentada, que reúne ureia, NBPT e micronutrientes. A pesquisa rendeu a um dos autores da patente, o doutorando Bruno Cassim, o 4º Prêmio Carlos Florence, concedido pela ANDA. Inovação, porém, não é sinônimo de solução pronta: algumas interações físico-químicas entre o estabilizador e os micronutrientes ainda precisam ser compreendidas antes que o produto chegue ao mercado, e o caminho do laboratório à lavoura exige validação em cada etapa.
No entanto, depois da fórmula encontrada na pesquisa, vem a escala e o campo. Automação, sensores e rastreabilidade garantem que um produto criado em pequena escala mantenha suas características em milhões de toneladas, e a agricultura de precisão, com mapas de produtividade, imagens de satélite e aplicação em taxa variável, permite tratar a lavoura como um mosaico de necessidades.
Tudo isso baseia-se, de acordo com o agrônomo, no conceito do manejo dos 4Cs para os fertilizantes: fonte, dose, momento e lugar certos. “Quanto melhores forem os dados e o manejo, melhor tende a ser a decisão. Um sistema sofisticado alimentado com informações ruins continuará produzindo respostas ruins. A inovação talvez não esteja em mudar aquilo que o fertilizante faz, mas em transformar profundamente a maneira como ele faz isso”, diz Casarin.
Toda essa tecnologia já está no prato da população: de acordo com estimativa da International Fertilizer Association (IFA), cerca de metade dos alimentos consumidos é produzida, hoje, graças à tecnologia dos fertilizantes.
A inovação também entrou na agenda do Estado. O Plano Nacional de Fertilizantes, instituído por decreto em 2023 e coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), prevê que a indústria nacional atenda a até 50% da demanda interna até 2050. Entre seus eixos estão investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação e soluções adaptadas aos solos tropicais, com iniciativas como o Laboratório Paulista de Pesquisas de Fertilizantes, em Campinas, em parceria com a Esalq/USP.
“O resultado final ainda pode ser um pequeno grânulo, mas o que existe por trás dele é muito mais complexo. Assim como o celular continua servindo para fazer ligações, mas se transformou com ciência, conectividade e inteligência, o fertilizante continua entregando nutrientes, mas deixou de ser apenas isso”, conclui Casarin.
Sobre a Nutrientes para a Vida (NPV)
A Nutrientes Para a Vida (NPV) é uma iniciativa da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), dedicada a ampliar o conhecimento da sociedade sobre o papel dos fertilizantes na produção de alimentos, na nutrição humana e na sustentabilidade ambiental. Com atuação baseada em informação técnica e científica qualificada, a NPV contribui para o debate público sobre segurança alimentar, manejo eficiente do solo e preservação dos recursos naturais, conectando o campo ao cotidiano das pessoas.
Por meio de conteúdos educativos, busca desmistificar conceitos, combater associações indevidas entre fertilizantes e outros insumos agrícolas, e reforçar a importância da reposição responsável de nutrientes para a produtividade agrícola e a qualidade dos alimentos. A iniciativa é uma extensão da fundação Nutrients for Life, que é uma organização que atua com o mesmo propósito em países como Estados Unidos e Canadá.
Ana Carolina Mendes

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