Como o Boi Desbravou o Interior do Brasil

A história do nascimento do Brasil se confunde com as pegadas do boi. Quando os colonizadores portugueses chegaram, a ocupação concentrava-se no litoral com os engenhos de cana-de-açúcar. Mas foi a criação de gado que empurrou as fronteiras do país para além da linha de Tordesilhas, rasgando o mato e ligando vilas isoladas ao coração do continente.

Tudo começou em 1534, quando os primeiros bovinos desembarcaram na Capitania de São Vicente, enviados de Portugal por Dona Ana Pimentel. Em 1535, Duarte Coelho introduziu novos rebanhos em Pernambuco, costume que logo se espalhou por outras capitanias. Naquela época, o gado era apenas um ajudante no trabalho pesado dos engenhos: puxava moendas, carregava carretas, fornecia couro e garantia a carne para os trabalhadores.
Esposa de Martim Afonso de Souza, governou a Capitania de São Vicente e foi quem ordenou o cultivo de cana-de-açúcar, laranja, arroz, trigo e a criação de gado na região
Só que os bois se multiplicaram rapidamente. Soltos pelos campos, invadiam e devastavam as valiosas plantações de cana-de-açúcar. A disputa entre lavradores e criadores ficou tão acirrada que a Coroa Portuguesa promulgou, em 1701, uma Carta Régia proibindo a criação de gado no litoral. Quem quisesse criar boi teria que se afastar pelo menos dez léguas da costa.
Proteção da cana-de-açúcar: O objetivo principal era evitar que os animais invadissem e destruíssem as plantações de cana-de-açúcar na Zona da Mata, reservando as terras mais férteis do litoral para a agricultura de exportação.
Papel do gado: Na época, a pecuária tinha caráter secundário e voltado ao mercado interno, servindo para tração nos engenhos, transporte e fornecimento de carne e couro.


Essa lei foi o empurrão decisivo para a conquista do sertão. Sem poder ficar na praia, os vaqueiros subiram o curso dos rios. O Rio São Francisco virou a grande estrada natural e ganhou o apelido de “Rio dos Currais”. Suas margens ofereciam água fresca, pastos naturais e depósitos de sal-gema que o gado necessitava. A pecuária tomou conta do Piauí, do Ceará, do Maranhão e da Bahia.
Caminho natural: Com a proibição da pecuária no litoral, o Vale do São Francisco serviu como a principal rota natural para a expansão do gado em direção ao interior do Nordeste.
Proliferação de fazendas: Ao longo das margens do rio, surgiram centenas de currais e fazendas de gado (as chamadas “fazendas de sesmaria”) para abastecer tanto a zona açucareira quanto, mais tarde, a região das Minas Gerais.
Abastecimento e integração: O rio tornou-se a grande artéria que conectava o sertão ao resto da colônia, transportando carne-seca (charque), couro e animais vivos.
No século XVIII, a descoberta de ouro em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso criou uma nova e gigantesca demanda por alimento e transporte. O vaqueiro e o tropeiro passaram a ser os abastecedores oficiais das minas, transportando carne, leite e couro. Foi no rastro dessas rotas de abastecimento que as primeiras boiadas atravessaram o Brasil Central, alcançando o antigo território de Mato Grosso e assentando as raízes da pecuária no Centro-Oeste.
Este é o primeiro capítulo desta série, acompanhe por aqui e em nossas redes sociais também.
📚 BIBLIOGRAFIA
- ADAS, Melhem. Panorama Geográfico do Brasil. São Paulo: Moderna, 1983.
- MEDEIROS NETO, José Bernardo de. Desafio à Pecuária Brasileira. Porto Alegre: Sulina, 1970.
- PRADO JÚNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.
- TEIXEIRA, Jodenir Calixto; HESPANHOL, Antonio Nivaldo. A trajetória da pecuária bovina brasileira. Caderno Prudentino de Geografia, v. 1, n. 36, p. 26-38, 2014

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